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O que a dança ensina sobre gestão?

Era algo entre maio e junho de 2020 e, na contramão de publicações clássicas sobre o universo dos negócios, o periódico Harvard Business Review estampa em sua capa uma executiva bailarina equilibrada em suas sapatilhas de ponta. O título “The Agile Executive” chamava a atenção para a matéria sobre o equilíbrio entre inovação e eficiência dentro das organizações em tempos difíceis. Imediatamente, me identifiquei. Tanto pelo conteúdo, quanto pela estética daquele exemplar. 

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São 18 anos de carreira corporativa, sendo os últimos 10 em cargos de gestão. E durante esta intensa jornada, não faltaram ocasiões em que recorri aos ensinamentos da minha formação como bailarina clássica para vencer os mais diversos desafios.

Para além da rigidez do método russo (minha formação é pela Escola Vaganova), o/a bailarino/a consegue concluir longos anos de aprendizagem somente quando compreende valores importantes, não só para o universo artístico, mas para a vida em sociedade. Sempre costumo dizer que ser bailarino/a é mais que uma profissão, mas sim um estilo de vida. E ter entrado em contato com tais valores, desde pequena, moldou a forma como enxergo o mundo e as relações humanas e, consequentemente, meu estilo de liderança. 

Já sabemos há muito que resiliênciadisciplinaempatia e inteligência emocional são competências essenciais para o/a profissional contemporâneo/a. Mas ao contrário do que a maioria imagina, estes atributos não estão presentes naturalmente no comportamento humano. Eles são adquiridos, com exercício perseverante, nas mais diversas situações de conflito. E quanto mais cedo nos colocamos diante desses desafios, maiores são as chances de desenvolver tais competências até o exercício pleno da liderança. E foi exatamente esse o legado que o ballet clássico deixou para a minha vida e minha profissão.

Resiliência. O aprendizado da dança é processual e intrinsecamente frustrante. Levam-se mais de 10 anos para obter o domínio da técnica no ballet clássico. São muitos tombos antes de aprender a girar a primeira pirueta. São muitas dores musculares até criar a compleição física necessária para que movimentos complexos se tornem dinâmicos ou delicados. E só completa a jornada quem consegue recobrar a motivação queda após queda. Quem não exercita a resiliência desiste no meio do caminho. Bailarinos/as clássicos/as são, em geral, considerados/as excelentes profissionais justamente por aprender a perseverar e adaptar-se diante das frustrações.

Disciplina. É preciso uma dose extra de força de vontade e disciplina para dominar o corpo, para instigá-lo até limites que sequer imaginamos. Sem uma rotina disciplinada, de repetições, aulas e ensaios, boa alimentação e sono regular não se aprende a dançar. E aprender a dançar é transformar movimentos naturais e orgânicos em movimento controlado e preciso. A manutenção de uma rotina disciplinada faz do/a bailarino/a um/a excelente planejador/a e antecipador/a de problemas, pois o foco e o propósito jamais são perdidos, mesmo que alguns ajustes sejam necessários no meio do caminho.    

Empatia. Ninguém aprende a dançar sozinho. A presença do outro, seja como instrutor, partner ou colega de grupo, é sempre necessária. A dança é um exercício coletivo e sincrônico. Um corpo de baile depende da sincronia de vários indivíduos para que o movimento seja único. Quando ensaiamos uma coreografia, as primeiras instruções de ensaiadores são sempre “observe o/a colega da frente, observe o grupo com sua visão periférica e ajuste seu movimento de acordo”. É a partir do aprendizado destes princípios que o/a bailarino/a se torna naturalmente um/a ótimo/a team player, pois compreende naturalmente a necessidade, as dores e as dificuldades alheias para adaptar-se ou negociar se preciso for.

Inteligência Emocional. Tal como um/a yogi ou um/a lutador/a de artes marciais, o/a bailarino/a compreende intuitivamente a simbiose entre mente e corpo. Compreender sua própria linguagem corporal e a dos outros o/a auxilia a antecipar situações difíceis no ambiente corporativo. Compreender as emoções e agir de acordo é um diferencial que muitas pessoas ainda lutam para atingir e o/a bailarino/a dispara à frente de outros/as profissionais nesta competência.   

Poderia elencar aqui um sem número de outras competências que adquiri com minha formação em dança clássica. Durante todos estes anos de vivência corporativa, tornou-se claro que profissionais engajados em temas das artes, das ciências e do deporto são diferenciados daqueles que não enxergam a importância de experenciar a vida para além do escritório. Ao compor minhas equipes, sempre pergunto qual a fonte de inspiração daquelas pessoas. Quando percebo qualquer um desses interesses, tenho certeza: encontrei o/a profissional com valores semelhantes aos meus e com grandes chances de um desempenho brilhante. Tal qual um/a bailarino/a treina a vida toda para brilhar no palco!

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